Quando o dique estoura
Finais não precisam ser horríveis. É suficiente serem
tristes
Como termina um amor? Talvez não termine, somente mude para o
terreno da amizade sem nos darmos conta. O carinho, o respeito, a vontade de
dividir alegrias corriqueiras continuam a viver e nem sequer notamos que algo
morreu. Não admitimos a possibilidade de o eterno não existir. Mas morreu algo
quase imperceptível, que só notamos quando não está mais lá, entrelaçando as
mãos.
Insultos e traições não são necessários para que o amor
termine. Alguns, os mais rudes, clamam pela destruição total, precisam do
insuportável para divisar que aquilo que um dia foi claro e luminoso
transformou- se em um lodaçal onde ambos se afogam, puxados pelo peso do rancor,
pela negativa em abandonar o navio, mesmo rodeados pelos destroços. Não é
necessário exterminar tudo de belo para notar que as cores desbotaram e, apesar
de ainda harmônicas, já não enchem os olhos de satisfação. A maior dor vem da
constatação de que só o amor não basta – a tela que pintamos a quatro mãos pode
continuar linda, mas foi, imperceptivelmente, sendo esvaziada de significados e
se transformou em algo que observo, mas do qual, tristemente, não faço
parte.
O espaço que o amor toma é muito grande; preenche tudo. No
momento em que diminui (talvez não diminua apenas sofra uma metamorfose: não
acredito que o amor possa arrefecer, apenas se transforma em outra coisa,
inominável) sentimos como se tivessem arrancado nosso fígado, nosso rim. Somos
assolados pela convicção tão hesitante quanto lancinante de que não
sobreviveremos a sensação de não termos mais porto, segurança, paz. A voz cálida
ao telefone. Nos invade a certeza ainda mais cruel de que, depois dessa fissura,
não poderemos levar isso adiante, não poderemos provocar mais dor e nem infligi-
la a nós mesmos. A certeza de que fomos lançados em alto mar e já não nos cabe
querer ou não – a realidade não precisa de nós.
Casa vazia
Então vem o assombro, a sensação de trairmos o outro por já não
conseguir ser parte de dois, pela estranha e urgente necessidade de sermos um,
sozinhos, de nos vermos despejados da visão carinhosa e complacente. "Perdi algo
que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se
tivesse perdido um terceiro apoio que até então me impossibilitava de andar mas
que fazia de mim um tripé estável. Este terceiro apoio eu perdi. E voltei a ser
uma pessoa que nunca fui. Sei que só com duas pernas é que posso caminhar, mas a
ausência do apoio me faz aflita e me assusta, era ele que fazia de mim uma coisa
encontrável por mim mesma, sem querer precisar me procurar." (Clarisse
Lispector)
E seria inútil esforçar- se para esquecer – tudo o que um dia
se misturou carregará consigo partículas do outro. Talvez venha o
arrependimento, o recomeço, as cores voltem a brilhar como antes – mas não se
pode contar com isso. Não se pode contar com nada. O único caminho viável é
viver e correr o sagrado risco do acaso. E substituir o destino pela
probabilidade.
O único caminho é entregar- se à desorientação e ter fé, muita
fé, de que ela nos leve a um lugar mais calmo, inabitado por nossa agonia e pelo
medo de ficarmos sós.