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 Escrito por Jesus Lima às 18h21
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A IDIOTICE É VITAL PARA A FELICIDADE

(Ailin Aleixo, colunista da revista Vip, onde este artigo foi originalmente publicado.)

"Gente chata essa que quer ser séria, profunda, visceral. Putz, coisa pentelha! A vida já é um caos, por que fazermos dela, ainda por cima, um tratado do Schopenhauer? Deixe a urgência para as horas em que ela é inevitável: mortes, separações, dores. No dia-a-dia, pelo amor de Deus, seja idiota. Ria dos próprios defeitos, tire sarro de suas inabilidades.
Ignore o que o boçal do seu chefe proferiu. Pense assim: quem tem que carregar aquela cara feia, todos os dias, inseparavelmente, é ele. Pobre dele. E nada pessoal também. Pior o Michael Jackson! Milhares de casamentos acabaram-se não pela falta de amor, dinheiro, sexo, sincronia, mas pela ausência de idiotice. Trate seu amor como seu melhor amigo, e
pronto. Quem disse que é bom dividirmos a vida com alguém que tem conselho pra tudo, soluções sensatas, objetivos claramente traçados mas não consegue rir quando tropeça? Que sabe resolver uma crise familiar mas não tem a menor idéia

de como preencher as horas livres de um fim de semana?
Quanto tempo faz que você não vai ao cinema, não joga video- game, maçã do amor no circo ou parque de diversões nem se fala. Também valem beijo no portão, amasso no carro, essas coisas. Sim, porque é bem comum gente que fica perdida quando se acabam os problemas. E aí, o que elas farão se já não têm por que se desesperar? Em suma: desaprenderam

a brincar. Eu não quero alguém assim comigo. Tudo que é mais difícil é mais gostoso, mas a realidade já é dura; piora se for densa. Dura e densa, ruim. Brincar é legal. Entendeu? Esqueça o que te falaram sobre ser adulto, tudo aquilo de não brincar com comida, não falar besteira, não ser imaturo, não se descontrolar, não demonstrar o que sente, não chorar nem comer danoninho, não andar descalço. É muito não. Dá prá ser feliz com tanto não? Pagar as contas, ser bem- sucedido, amar, ter filhos, saber beber, levar a gata pra jantar e depois pro motel, resolver os seus pepinos e os abacaxis dos outros, dar atenção ao tio doente e lembrar do seguro do carro que vence amanhã - tarefa brava. Piora, muito, com o peso de todos aqueles nãos.
Tenha fé em uma coisa: dá certo ser adulto e idiota. Aliás, tudo fica bem mais fácil ser for regado a idiotice, bom humor e muitas gargalhadas. Manuel Bandeira foi um grande homem e um grande poeta. Disse certa vez: "E por que essa condenação da piada, como se a vida fosse só feita de momentos graves ou só nesses houvesse teor poético?". Estava certo. E viva a abobrinha!!! Empine pipa!!! Adultos podem (e devem) contar piadas, ir ao fliperama, passear no parque, gostar dos Simpsons, beliscar a bunda da mulher, sair pelados pela cozinha e lamber a tampa do iogurte. Ser adulto não é perder os prazeres da vida - e esse é o único "não" realmente aceitável. Teste a teoria. Uma semaninha, pra começar. Veja e sinta as coisas como se elas fossem o que são, passageiras. Acorde de manhã e decida entre duas coisas: ficar de mau humor e transmitir isso adiante ou fingir um sorriso que acaba trazendo outros verdadeiros e de repente tudo está fluindo bem, a seu favor - então o sorriso se torna grande. A briga, a dívida, a dor, a mágoa, a dúvida, a raiva, tudinho vai passar, então pra que tanta gravidade? Já fez tudo o que podia para resolver o problema? Parou, chorou, respirou fundo, comeu chocolate e pediu arrêgo? Ótimo, hora da idiotice: entre na Internet, jogue pebolim, coma um churrasco grego, vá por um caminho diferente, cantarole no trânsito! Tá numa de empinar pipa no sábado? Vá. E suje a roupa na grama, por favor. Quer conversar com sua namorada imitando o Pato Donald mas acha muito boçal? E é, mas e daí? Você realmente acha que ela vai gostar menos de você por isso? Ela não vai, tenha certeza. Só vai gostar mais, porque é delicioso estarmos com quem sorri e ri de si mesmo. E não se surpreenda se chegar em casa e a encontrar fantasiada de Margarida, só pra variar o clichê
champagne-morangos-lingerie. Eu fico chateado por não ser tão idiota quanto gostaria; tenho uma mania horrível de, sem querer, recair na seriedade.
Então o mundo fica cinza e cada lágrima ganha o peso de uma bigorna. Nessas horas não preciso de cenhos franzidos de preocupação. Nessas horas tudo de que preciso é uma bela, grande e impagável idiotice. Aquelas besteiras que o colega ao lado sempre solta. Como sair pra jogar paintball - ou, melhor ainda, me olhar fixamente no espelho até notar como fico feio com os olhos vermelhos e o nariz escorrendo. Como fico ridículo quando esqueço que tudo passa. E como meu sorriso é bonito! Bom mesmo é ter o problema na cabeça, o sorriso na boca e paz no coração!!!! Aliás, entregue os problemas nas mãos de Deus e, que tal batata frita com sorvete agora mesmo, no happy hour??? Tenha um dia perfeito, um final de semana maravilhoso, uma vida feliz e nunca deixe de ser criança!"



 Escrito por Jesus Lima às 04h58
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Legião Urbana


Giz


Composição: Desconhecido

E mesmo sem te ver
Acho até que estou indo bem
Só apareço, por assim dizer
Quando convém
Aparecer ou quando quero
Quando quero

Desenho toda a calçada
Acaba o giz, tem tijolo de construção
Eu rabisco o sol que a chuva apagou
Quero que saibas que me lembro
Queria até que pudesses me ver
És, parte ainda do que me faz forte
E, pra ser honesto
Só um pouquinho infeliz

Mas tudo bem
Tudo bem, tudo bem...
Lá vem, lá vem, lá vem
De novo
Acho que estou gostando de alguém
E é de ti que não me esquecerei



 Escrito por Jesus Lima às 19h28
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POR QUE NOS PERDEMOS, 
DEPOIS DE NOS ACHARMOS??

                     

Hoje assisti um filme lindo, onde um escritor disse a seguinte frase: "O segredo da chave do coração de uma mulher está em dar presentes inesperados em momentos também inesperados" Fiquei  pensando nisso, e concluí, como alguém pode perder um grande amor, facilmente, da mesma forma que facilmente o ganhou?

Quando se inicia uma relação,  o ser humano dá o melhor de si mesmo, depois, não sei bem  o porquê, ele estaciona, se acomoda e vai se esquecendo das palavras doces, dos carinhos inesperados, das surpresas gostosas... E, deixa que a relação caia na mesmice, no lugar comum. Aquele mesmo lugar do qual ele queria fugir, do qual estava enjoado.

Coisa complicada o ser humano! Não me admira que tão poucos sejam vitoriosos no amor. Há que se cuidar dele como se cuida de um bebê... com carinho de mãe, com zelo de de médico, com eficiência  de professor, e assiduidade de bom aluno.

Exupèry é que estava certo... "É o tempo que perdemos com alguém, que torna esse alguém importante pra nossa vida!" Não se pode amar alguém, sem  se perder tempo com ele.

Todos sonhamos com um amor paixão, com um amor sentimento e com um amor amizade. Todos, sem exceção, mas, só os privilegiados chegam lá. E não são privilegiados porque chegam, mas chegam porque são privilegiados... enxergam com olhos que vêem pra dentro, além das aparências, além do visível! São os fortes os vencedores no amor!

Homens são, como dizia alguém, seres estranhos; ouvem CHopin. recitam Tagore, encantam-se com as estrelas e depois se matam!" Como pode  o ser humano, ser tão tolo? Como pode deixar passar a chance de ser feliz no amor?

Tenho pra mim, e não é de hoje, que a vida só vale a pena  ser vivida, se  envolvida na vida de outra vida.

Serei eu a única pessoa neste mundo a valorizar o amor?

Serei a única a enxergar que quase sempre jogamos pelo ralo um grande amor, por preguiça de lutar por ele?

Será que só eu, apenas eu,  sei ver com  os olhos  do coração? Fazer a música tocar até o fim, perder-se em outro alguém, sem perder-se de si mesmo. "How do you keep the music playing "canta Tony Bennet... 

Coisa difícil aos comuns mortais, sempre tão ligados à matéria, aos deveres, sempre a olhar pra baixo em direção ao seu próprio umbigo... nunca sonhar  com as estrelas, nunca olhar além do arco-íris.. "over the rainbow"... é lá que se encontra  o nirvana... e quantos chegam tão perto e o perdem , porque se detém em atalhos sem brilho próprio..ou com brilho enganoso!

Ah! as almas humanas... embranquecem e se deixam murchar.

Não vou aceitar viver uma vida sem sonhos. Não vou aceitar jamais viver uma vida medíocre de mesmice e cotidianidade sem esperança. Adoro  o cotidiano, mas aquele cotidiano rico de alegrias, de sonhos, de tentativas mesmo que nelas se quebre a cara. 

Pior que não sofrer , é ter um coração vazio, sem lugar pro inesperado, pra mágica das palavras, pros sentimentos densos, intensos, sem senso... Quem quer saber de senso em se tratando de amor? Amor com senso não tem consenso, tem  pasmaceira e chatice.

Quero dizer como Gonzaguinha ... viver e não ter a vergonha de ser feliz... cantar a beleza de ser um eterno aprendiz!!! Aprendiz do amor!!! Esse fogo que arde sem se ver...Viva Camões! Viva os ladrões de corações!!

Mas viva mesmo os ladrões que sabem aprisionar os corações roubados em maravilhosas e sutis teias. Guardam a pérola de maior valor e deixam o resto pra quem não ama tesouros que valham a pena. Sabem  que nada no mundo lhes fará abandonar o que encontraram Sua busca chegou ao fim... ENCONTRARAM O TESOURO TÃO PROCURADO.

Viva os amantes apaixonados! Esqueça o mundo... e "be my love"

 

    Ercília Ferraz de Arruda Pollice
 Escritora, poeta, artista plástica,
membro da Academia Bauruense de Letras,
assessora de arte de
 JU MACHADO ESCRITÓRIO DE ARTE



 Escrito por Jesus Lima às 17h35
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Errata

Acredito que tenha me expressado muitíssimo mal no post anterior, na verdade estou vivendo um momento ímpar em minha vida. Estou com propostas firmes no campo profissional (a empresa está com planos de expansão, inclusive internacionalização), depois de muitos anos me reconciliei, enfim, com meus pais, reencontrei um amor que acreditava nunca mais ver, aliás passei o final de semana passado com ela... Estamos nos readaptando a uma nova realidade, com muitos desafios, mas com verdade acima de tudo, com vida, confiança e cumplicidade. Deixei para trás, e de forma definitiva, todos os fantasmas da última relação – ficou provado que tinha razão e que não queria, não deveria e nem poderia ser o freio moral de ninguém, então o que eu quero expor não são problemas e sim todo este bom momento e a forma como estou vivendo:

Para acompanhá- lo só o bom e velho Sinatra:

My Way

And now the end is near
So I face the final curtain
My friend, I'll say it clear
I'll state my case of which I'm certain

I've lived a life that's full
I've travelled each and every highway
And more, much more than this
I did it my way

Regrets, I've had a few
But then again, too few to mention
I did what I had to do
And saw it through without exception

I planned each charted course
Each careful step along the byway
Oh, and more, much more than this
I did it my way

Yes, there were times, I'm sure you knew
When I bit off more than I could chew
But through it all when there was doubt
I ate it up and spit it out
I faced it all and I stood tall
And did it my way

I've loved, I've laughed and cried
I've had my fails, my share of losing
And now as tears subside
I find it all so amusing
To think I did all that
And may I say, not in a shy way
Oh, no, no not me
I did it my way

For what is a man, what has he got
If not himself, then he has not
To say the things he truly feels
And not the words he would reveal
The record shows I took the blows
And did it my way



 Escrito por Jesus Lima às 23h29
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É incrível como um fato isolado pode mudar toda uma vida, como todas as convicções podem cair por terra, como todas as certezas podem ser postas em dúvida, como tudo que se levou uma vida para construir pode, simplesmente, e sem aviso prévio, desabar... Mas, como já posto na história – "toda a derrota pode suscitar forças para ulterior reedificação", aqui estou eu...

Estas últimas semanas marcaram o fim de um ciclo. Um ciclo de dúvidas, incertezas, perdas, dor, traições, quase um contexto "nelsonrodrigueano", em que fui tomado pelo que nunca fui e acreditei no que menos devia, vivi uma ilusão, mas como todos os ilusionistas sabem, um dia a magia acaba...

...E acabou!

Após estar vivendo alguns dos melhores momentos de minha vida (estes últimos dias!), relembro um texto maravilhoso de um autor desconhecido:

"Depois de algum tempo você aprende a diferença, a sutil diferença entre dar a mão e acorrentar uma alma. E você aprende que amar não significa apoiar-se. Que companhia, nem sempre, significa segurança. E começa a aprender que beijos não são contratos. E presentes não são promessas.

E começa a aceitar suas derrotas com a cabeça erguida e olhos adiante, com a graça de um adulto e não com a tristeza de uma criança. E aprende a construir todas as suas estradas no hoje, porque o terreno do amanhã é incerto demais para os seus planos, e o futuro tem o costume de cair em meio ao vão.

Depois de um tempo você aprende que o sol queima se você ficar exposto por muito tempo. E aprende que não importa o quanto você se importe, algumas pessoas simplesmente não se importam... E aceita que não importa quão boa seja uma pessoa, ela vai feri-lo, de vez em quando, e você precisa perdoá-la por isso.

Aprende que falar pode aliviar dores emocionais.

Descobre que se leva anos para se construir confiança e apenas segundos para destruí-la, e que você pode fazer coisas em um instante, das quais se arrependerá pelo resto da vida.

Aprende que verdadeiras amizades continuam a crescer mesmo a longas distâncias. E o que importa não é o "que" você tem na vida, mas "quem" você tem na vida. E que bons amigos são a família que nos permitiram escolher.

Aprende que não temos que mudar de amigos se compreendemos que os amigos mudam. Percebe que seu melhor amigo e você podem fazer qualquer coisa, ou nada, e terem bons momentos juntos. Descobre que as pessoas com quem você mais se importa na vida são tomadas de você muito depressa, por isso sempre devemos deixar, a cada vez, as pessoas que amamos com palavras amorosas, pois pode ser a última vez que as vejamos.

Aprende que as circunstâncias e os ambientes têm influência sobre nós, mas nós somos responsáveis por nós mesmos. Começa a aprender que não se deve comparar com os outros, mas com o melhor que pode ser. Descobre que se leva muito tempo para se tornar a pessoa que quer ser, e que o tempo é curto.

Aprende que não importa onde já chegou, mas aonde está indo, e se você não sabe para aonde está indo, qualquer lugar serve.

Aprende que, ou você controla seus atos, ou eles o controlarão, e que ser flexível não significa ser fraco ou não ter personalidade, pois não importa quão delicada e frágil seja uma situação, sempre existem dois lados.

Aprende que heróis são pessoas que fizeram o que era necessário fazer, enfrentando as conseqüências. Aprende que paciência requer vivência...

Descobre que algumas vezes a pessoa que você espera que o chute quando você cai é uma das poucas que o ajudam a levantar-se.

Aprende que maturidade tem mais a ver com os tipos de experiência que se teve, e o que você aprendeu com elas, do que com quantos aniversários você celebrou. Aprende que há mais dos seus pais em você do que você supunha. Aprende que nunca se deve dizer a uma criança que sonhos são bobagens, poucas coisas são tão humilhantes e seria uma tragédia se elas acreditassem nisso.

Aprende que quando está com raiva, tem o direito de estar com raiva, mas isso não lhe dá o direito de ser cruel. Descobre que só porque alguém não o ama do jeito que você quer que ame, não significa que esse alguém não o ama com tudo o que pode, pois existem pessoas que nos amam, mas simplesmente, não sabem como demonstrar ou viver isso.

Aprende que nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém, algumas vezes você tem que aprender a perdoar-se a si mesmo. Aprende que com a mesma severidade com que julga, você será em algum momento condenado. Aprende que não importa em quantos pedaços seu coração foi partido, o mundo não pára para que você o conserte.

Aprende que o tempo não é algo que possa voltar para trás. Portanto, plante seu jardim e decore sua alma, ao invés de esperar que alguém lhe traga flores. E você aprende que realmente pode suportar... que realmente é forte, e que pode ir muito mais longe depois de pensar que não se pode mais. E que realmente a vida tem valor e que você tem valor diante da vida!"

(Desconhecido)



 Escrito por Jesus Lima às 16h59
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"...Ontem a noite eu conheci uma guria que já conhecia, de outros carnavais, com outras fantasias..."



 Escrito por Jesus Lima às 07h49
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"Desejo primeiro que você ame,
 E que amando, também seja amado.
 E que se não for, seja breve em esquecer.
 E que esquecendo, não guarde mágoa.
 Desejo, pois, que não seja assim,
 Mas se for, saiba ser sem desesperar.
 
 Desejo também que tenha amigos,
 Que mesmo maus e inconseqüentes,
 Sejam corajosos e fiéis,
 E que pelo menos num deles
 Você possa confiar sem duvidar.
 E porque a vida é assim,
 Desejo ainda que você tenha inimigos.
 Nem muitos, nem poucos,
 Mas na medida exata para que, algumas vezes,
 Você se interpele a respeito
 De suas próprias certezas.
 E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
 Para que você não se sinta demasiado seguro.

 Desejo depois que você seja útil,
 Mas não insubstituível.
 E que nos maus momentos,
 Quando não restar mais nada,
 Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.
 
 Desejo ainda que você seja tolerante,
 Não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
 Mas com os que erram muito e irremediavelmente,
 E que fazendo bom uso dessa tolerância,
 Você sirva de exemplo aos outros.
 
 Desejo que você, sendo jovem,
 Não amadureça depressa demais,
 E que sendo maduro, não insista em rejuvenescer
 E que sendo velho, não se dedique ao desespero.
 Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e
 É preciso deixar que eles escorram por entre nós.
 
 Desejo por sinal que você seja triste,
 Não o ano todo, mas apenas um dia.
 Mas que nesse dia descubra
 Que o riso diário é bom,
 O riso habitual é insosso e o riso constante é insano.

 Desejo que você descubra,
 Com o máximo de urgência,
 Acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos,
 Injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta.

 Desejo ainda que você afague um gato,
 Alimente um cuco e ouça o joão-de-barro
 Erguer triunfante o seu canto matinal
 Porque, assim, você se sentirá bem por nada.

 Desejo também que você plante uma semente,
 Por mais minúscula que seja,
 E acompanhe o seu crescimento,
 Para que você saiba de quantas
 Muitas vidas é feita uma árvore.

 Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro,
 Porque é preciso ser prático.
 E que pelo menos uma vez por ano
 Coloque um pouco dele
 Na sua frente e diga "Isso é meu",
 Só para que fique bem claro quem é o dono de quem.

 Desejo também que nenhum de seus afetos morra,
 Por ele e por você,
 Mas que se morrer, você possa chorar
 Sem se lamentar e sofrer sem se culpar.

 Desejo por fim que você sendo homem,
 Tenha uma boa mulher,
 E que sendo mulher,
 Tenha um bom homem
 E que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,
 E quando estiverem exaustos e sorridentes,
 Ainda haja amor para recomeçar.
 E se tudo isso acontecer,
 Não tenho mais nada a te desejar".

Poema de Victor Hugo.



 Escrito por Jesus Lima às 00h21
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Se não houver amanhã...
(Para um amor de ontem!)

Sabe, eu costumava deixar muitas coisas para amanhã.
Resolvi lhe dizer, hoje, o quanto você é importante,
porque quando acordei,
uma pergunta ressoava na acústica de minha alma:
E senão houver amanhã?
Então, hoje eu quero me deter um pouco mais,
ouvir melhor suas idéias,
observar seus gestos mais simples,
guardar o tom de sua voz,
seu "jeitão" de andar,
de correr, de abraçar.
Porque... se não houver amanhã...
eu quero saber qual é a música
que você mais gosta, a sua cor predileta...
Porque, se não houver amanhã...
Eu quero ter gravado em minha mente
o seu sorriso, seu jeito de ser, suas manias...
Hoje eu quero fazer uma prece ao seu lado,
descobrir com você a magia da serenidade,
quero subir aos céus, juntos,
pelos fios invisíveis da oração.
Hoje eu vou me sentar com você,
ouvir a melodia dos pássaros
e sentir a brisa, em silêncio...
E sem pressa.
Hoje eu vou lhe pedir por favor,
agradecer, me desculpar,
pedir perdão, se for necessário.
Sabe, eu sempre deixei todas essas coisas
para amanhã, mas o amanhã...
o amanhã é apenas uma promessa... o hoje é presente.
Assim, se não houver amanhã
eu quero descobrir hoje qual é a flor que você mais gosta
e lhe ofertar um belo ramalhete.
Quero conhecer seus receios,
lhe aconchegar em meus braços
e lhe transmitir confiança...
Hoje, quando você for se afastar de mim,
vou segurar suas mãos e pedir para que fique
um pouco mais ao meu lado.
Sabe, eu sempre costumo deixar
as palavras gentis para dizer amanhã,
carinhos para fazer amanhã,
muita atenção para prestar amanhã,
mas o amanhã talvez não nos encontre juntos.
Eu sei que muitas pessoas sofrem
quando um ser amado embarca
no trem da vida e parte sem que tenham
tido a chance de dizer o que sentem
e sei também que isso é motivo
de muito remorso e sofrimento.
Por isso eu não quero deixar nada para amanhã,
pois se o amanhã chegar e não nos encontrar juntos,
você saberá tudo o que sinto por você
e saberei também o que você sente por mim.
Nada ficará pendente...
Quero registrar na minha alma cada gesto seu.
Quero gravar o seu sorriso,
pois se a vida nos levar por caminhos diferentes
eu terei você comigo, mesmo estando
temporariamente separados.
Sabe, eu não sei se o amanhã chegará para nós,
mas sei que hoje, hoje eu posso lhe dizer
o quanto você é importante para mim.
Eu te amo...


 Escrito por Jesus Lima às 19h01
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Carta escrita por Herbert de Souza (o Betinho) para sua mulher Maria e lida, um ano após sua morte, pelo ator Jonas Bloch, durante a cerimônia no CCBB:


"Este texto é para Maria ler depois da minha morte que, segundo meus cálculos, não deve demorar muito. É uma declaração de amor.

Não tenho pressa em morrer, assim como não tenho pressa em terminar esta carta. Vou voltar a ela quantas vezes puder e trabalhar com carinho e cuidado cada palavra. Uma carta para Maria tem que ter todos os cuidados.  Não quero triste, quero fazer dela também um pedaço de vida pela via de lembrança que é a nossa eternidade. Nos conhecemos nas reuniões de AP (Ação Popular), em 1970, em pleno Maoísmo. Havia uma clima de sectarismo e medo nada propício para o amor.

Antes de me aventurar andei fazendo umas sondagens e os sinais eram animadores, apesar de misteriosos. Mas tínhamos que começar o namoro de alguma forma. Foi no ônibus da Vila das Belezas, em São Paulo. Saímos em direção ao fim da linha como quem busca um começo. E aí veio o primeiro beijo, sem jeito, espremido, mas gostoso, um beijo público. A barreira da distância estava rompida para dar começo a uma relação que já completou 26 anos!

O Maoísmo estava na China, nosso amor na São João. Era muito mais forte que qualquer ideologia. Era a vida em nós, tão sacrificada na clandestinidade sem sentido e sem futuro. Fomos viver em um quarto e cozinha, minúsculos, nos fundos de uma casa pobre, perto da Igreja da Penha. No lugar cabia nossa cama, uma mesinha, coisas de cozinha e nada mais. Mas como fizemos amor naquele tempo! Foi incrível e seguramente nunca tivemos tanto prazer.

Tempos de chumbo, de medo, de susto e insegurança. Medo de dia, amor de noite. Assim vivemos por quase um ano. Até que tudo começou a "cair".   Prisões, torturas, polícia por toda a parte, o inferno na nossa frente.  Fomos para o Chile. E ali, chamado por Garcez para
elaborar textos, acabei no agrado de Allende, que os usou em seus discursos oficiais. Foi a primeira vez que eu vi amor virar discurso politico... Depois passamos por muita coisa até voltar. Até que a anistia chegou e nos surpreendeu. E agora, o que fazer com o Brasil?
Foi um turbilhão de emoções: o sonho virou realidade!  Era verdade, o Brasil era nosso de novo. A primeira coisa foi comer tudo que não havíamos comido no exílio: angu! com galinha ao molho pardo, quiabo com carne moída, chuchu com maxixe, abóbora, cozido, feijoada.  Um
festival de saudades culinárias, um reencontro com o Brasil pela boca.

Uma das maiores emoções da minha vida foi ver o Henrique surgindo de dentro de você. Emoção sem fim e sem limite que me fez reencontrar a infância.

Depois do exílio, nossas vidas pareciam bem normais. Trabalhávamos; viajávamos nas férias, visitávamos os amigos, o Ibase funcionava, até a hemofilia parecia que havia dado uma trégua. Henrique crescia, Daniel aos poucos se reaproximava de mim, já como filho e amigo.

Mas como uma tragédia que vem às cegas e entra pelas nossas vidas, estávamos diante do que nunca esperei. A Aids. Em 1985, surge a notícia da epidemia que atingia homossexuais, drogados e hemofílicos. O pânico foi geral. Eu, é claro, havia entrado nessa. Não bastava ter nascido mineiro, católico, hemofílico, maoísta e meio deficiente físico.

Era necessário entrar na onda mundial, na praga do século, mortal, definitiva, sem cura, sem futuro e fatal. E foi aí que você, mais do que nunca, revelou que é capaz de superar a tragédia, sofrendo, mas enfrentando tudo e com um grande carinho e cuidado. A Aids selou um
amor mais forte e mais definitivo porque desafia tudo, o medo, a tentação do desespero, o desânimo diante do futuro. Continuar tudo apesar de tudo, o beijo, o carinho e a sensualidade.

Assumi publicamente minha condição de soropositivo e você me acompanhou. Nunca pôs um "senão" ou um comentário sobre cuidados necessários. Deu a mão e seguiu junto como se fosse metade de mim, inseparável. E foi. Desde os tempos do cólera, da não esperança, da morte do Henfil e Chico, passando pelas crises que beiravam a morte até o coquetel que reabria as esperanças.  Tempo curto para descrever, mas uma eternidade para se viver.

Um dos maiores problemas da Aids é o sexo. Ter relações com todos os cuidados ou não ter? Todos os cuidados são suficientes ou não se deve correr riscos com a pessoa amada? Passamos por todas as fases, desde o sexo com uma ou duas camisinhas até sexo nenhum, só carinho. Preferi a segurança total ao mínimo risco.

Parei, paramos e sem dramas, com carências, mas sem dramas, como se fosse normal viver contrariando tudo que aprendemos como homem e mulher, vivendo a sensualidade da música, da boa comida, da literatura, da invenção, dos pequenos prazeres e da paz. Viver é muito mais que fazer sexo. Mas para se viver isso, é necessário que Maria também sinta assim e seja capaz dessa metamorfose como foi.

Para se falar de uma pessoa com total liberdade é necessário que uma esteja morta e eu sei que este será o meu caso. Irei ao meu enterro sem grandes penas e  principalmente sem trabalho, carregado. Não tenho curiosidade para saber quando, mas sei que não demora muito.

Quero morrer em paz, na cama, sem dor, com Maria do meu lado e sem muitos amigos, porque a morte não é ocasião para se chorar, mas para celebrar um fim, uma história. Tenho muita pena das pessoas que morrem sozinhas ou mal acompanhadas, é morrer muitas vezes em uma só. Morrer sem o outro é partir sozinho. O olhar do outro é que te faz viver e descansar em paz. O ideal é que pudesse morrer na minha cama e sem dor, tomando um saquê gelado, um bom vinho português ou uma cerveja gelada.

Te amo para sempre,

Betinho,

Itatiaia, janeiro de 1997"

Extraída do "Jornal da Orla" de Santos, SP, ao dia 24 janeiro 1999.



 Escrito por Jesus Lima às 19h18
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Da série, antigas Cartas de Amor:

"...Não sei bem por qual dos crimes fui tomado, sei que não foram poucos ao longo da minha vida, espero que esteja bem certa do que esteja fazendo.

Daria metade dos anos que restam nesta vida para saber agora sobre o que fui julgado. E daria metade da minha alma para aprender a jamais fazê- la sofrer. Sei que não tenho tido muito êxito nisto! Não tenho tido muito sucesso em não derramar lágrimas ou fazê- las em outros rostos, tento viver com um passivo inadministrável de desilusões causadas, com sonhos despedaçados e ilusões perdidas.

Creio que você conheça boa parte dos meus crimes e, com a sua retidão de conduta, me tome pelo mais devasso dos homens, algo que, creia em mim, não o sou. Deitei- me muitas vezes e por vezes uma única vez, é fato! Também é fato que nem sempre havia apenas uma em minha cama, sei que não está em acordo com o que você acredita, mas acredite que trocaria todas as mulheres do mundo para tê- la novamente, apenas entre os meus braços e acariciá- la ternamente.

Acredito que fiz mais do que me caberia e muito mais do que deveria, não dei crédito aos limites, unificamos as nossas almas como eu gostaria de que unificássemos as nossas vidas. Perder você é tornar- me mais triste, mais vil, mais torpe e por fim muito mais frio.

Sinto como se jamais tivesse aprendido a amar e talvez seja este o caso. Amei desajeitadamente, amei ao acaso, talvez um amor, digamos assim, displicente, como uma criança que brinca com uma faca, por que ela brilha quando próxima a luz, mas foi um amor! Não foi o maior de todos, não movi exércitos, não iniciei uma guerra, não sacrifiquei vidas, talvez não tenha sacrificado nada, mas foi todo o amor que podia ter por alguém.

E sei que você mereceu!

Cada minuto ao seu lado, cada momento em que estive perto de você, me fizeram acreditar que viver vale a pena, me deram a certeza indelével de que a vida, a minha vida, terá um grande marco: você.

Até os dias de hoje será "Com você" e apartir de agora "Sempre com você".

Não sei bem por que você foi embora, mas espero saber por que você vai voltar..."



 Escrito por Jesus Lima às 03h25
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"Mi dispiace devo andare via

Questa volta lo promesso a me

Perché ho voglia um amore vero

Senza te"



 Escrito por Jesus Lima às 02h48
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"... A mulher ideal me faz rir mas nunca uso o riso contra mim. Tem a rara habilidade de saber ouvir e só diz o que é necessário, bom ou a dura e intransponível realidade.

Compreende a diferença entre estar presente e fazer companhia.

Não é prolixa, nem tenta impressionar. Não precisa entender de vinhos, charutos ou golfe; precisa ser autêntica e admitir que não entende de vinhos, charutos nem de golfe (e eventualmente confessar que gosta mesmo é de pinga). Ela não exige a todo instante meu lado risonho porque sabe, como sabe de tantas outras coisas não ditas em sentenças ou discursos, que os dias negros fazem parte de mim.

Nota as sutis alterações de humor pelo tom da minha voz e, antes de prejulgar as razões, se predispõe a fazer cafuné ou, sensata, cala- se ao meu lado olhando para a TV. E não exige explicações porque possui uma calma sabedoria que me impele em sua direção: dividir minhas angústias e anseios com esta mulher é tão acolhedor quanto deitar na grama sob o sol de outono.

A mulher ideal me dá bronca quando abuso da minha independência.

Compreende que preciso da sensação indescritivelmente libertadora de sumir por algumas horas e, mesmo não concordando com ela, não me interroga como um oficial do DOI- Codi quando piso em casa, levemente para não a acordar, às 2 da manhã.

A mulher ideal canta. Não precisa ser afinada, mas sussurra (seja ao telefone ou ao vivo) canções que, num dia qualquer, mencionei gostar.

Pode saber dançar. E, se não souber, que mantenha a dignidade e fique sentadinha me observando. Também bebe. Meio pinguça, é daqueles que ficam charmosas de matar com um copo de uísque nas mãos. É deliciosamente sacana três doses acima do normal. Enterra os bons modos e fecha abruptamente a porta do quarto, sem tempo para que eu responda a pergunta nem sequer formulada. Adormece aconchegada a mim, mas não suporta ficar agarrada toda a noite.

Ela faz asneiras. E também curte cozinhar.

Diverte- se tanto numa loja de condimentos como diante de uma prateleira de CDs. Não me expulsa da cozinha mesmo que eu esteja atrapalhando. Não me dá fusílli na boca mas o serve em meu prato, com pouco queijo e muito molho.

A mulher ideal está sempre disposta a me ouvir, mesmo que seja nos minutos desagendados à força durante o dia cheio, e não usa o trabalho, nem cansaço como desculpa para as suas eventuais faltas; as assume e, até, se desculpa. Não se esquiva de discutir problemas que não se solucionam com notas de R$ 100. Não considera fraqueza dizer que ama. Pede ajuda quando sente que o peso colocado sobre seus ombros extrapolou a sua força. E chora. Não faz promessas por que sabe que nem sempre é possível cumpri-las. Vive regida por sua consciência e, impulsiva, assassina a etiqueta e comete atos passionais. Então faz besteiras, erra, engana-se. E nem por isso deixa de ser maravilhosa, apenas segue sendo magnífica e tropegamente humana.

A mulher ideal é imperfeita, numa imperfeição que combina exatamente com a minha..."



 Escrito por Jesus Lima às 00h24
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Quando o dique estoura

Finais não precisam ser horríveis. É suficiente serem tristes

Como termina um amor? Talvez não termine, somente mude para o terreno da amizade sem nos darmos conta. O carinho, o respeito, a vontade de dividir alegrias corriqueiras continuam a viver e nem sequer notamos que algo morreu. Não admitimos a possibilidade de o eterno não existir. Mas morreu algo quase imperceptível, que só notamos quando não está mais lá, entrelaçando as mãos.

Insultos e traições não são necessários para que o amor termine. Alguns, os mais rudes, clamam pela destruição total, precisam do insuportável para divisar que aquilo que um dia foi claro e luminoso transformou- se em um lodaçal onde ambos se afogam, puxados pelo peso do rancor, pela negativa em abandonar o navio, mesmo rodeados pelos destroços. Não é necessário exterminar tudo de belo para notar que as cores desbotaram e, apesar de ainda harmônicas, já não enchem os olhos de satisfação. A maior dor vem da constatação de que só o amor não basta – a tela que pintamos a quatro mãos pode continuar linda, mas foi, imperceptivelmente, sendo esvaziada de significados e se transformou em algo que observo, mas do qual, tristemente, não faço parte.

O espaço que o amor toma é muito grande; preenche tudo. No momento em que diminui (talvez não diminua apenas sofra uma metamorfose: não acredito que o amor possa arrefecer, apenas se transforma em outra coisa, inominável) sentimos como se tivessem arrancado nosso fígado, nosso rim. Somos assolados pela convicção tão hesitante quanto lancinante de que não sobreviveremos a sensação de não termos mais porto, segurança, paz. A voz cálida ao telefone. Nos invade a certeza ainda mais cruel de que, depois dessa fissura, não poderemos levar isso adiante, não poderemos provocar mais dor e nem infligi- la a nós mesmos. A certeza de que fomos lançados em alto mar e já não nos cabe querer ou não – a realidade não precisa de nós.

Casa vazia

Então vem o assombro, a sensação de trairmos o outro por já não conseguir ser parte de dois, pela estranha e urgente necessidade de sermos um, sozinhos, de nos vermos despejados da visão carinhosa e complacente. "Perdi algo que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se tivesse perdido um terceiro apoio que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Este terceiro apoio eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Sei que só com duas pernas é que posso caminhar, mas a ausência do apoio me faz aflita e me assusta, era ele que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, sem querer precisar me procurar." (Clarisse Lispector)

E seria inútil esforçar- se para esquecer – tudo o que um dia se misturou carregará consigo partículas do outro. Talvez venha o arrependimento, o recomeço, as cores voltem a brilhar como antes – mas não se pode contar com isso. Não se pode contar com nada. O único caminho viável é viver e correr o sagrado risco do acaso. E substituir o destino pela probabilidade.

O único caminho é entregar- se à desorientação e ter fé, muita fé, de que ela nos leve a um lugar mais calmo, inabitado por nossa agonia e pelo medo de ficarmos sós.



 Escrito por Jesus Lima às 20h49
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